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Da minha terra (também) guarani

Por Elaine dos Santos ·

Da minha terra (também) guarani

Breves considerações, sem propósito definitivo ou científico, sobre a inserção do município de Restinga Seca, situado no estado do Rio Grande do Sul (Brasil), no ano em que se comemora os 400 anos das Missões jesuítico-guaranis, que, sob certo aspecto, fundaram a cultura transoceânica nos campos, nas várzeas, nos montes no extremo sul do Brasil.

 Quando contemplo as várzeas e as coxilhas que margeiam a cidade em que nasci, há algumas imagens recorrentes, elas insistem, persistem. Eu penso em bandos de quero-quero, em preás e tantos outros seres – talvez, minúsculos - que a natureza presenteou o Rio Grande desde sempre. Sou mestiça, tenho sangue europeu, tenho sangue negro, dos homens negros como a noite, mas tenho esse orgulho meio disfarçado, numa sociedade excludente, de trazer, em minhas veias, o sangue dos povos que dominavam as “llanuras” do Continente de São Pedro, nossos ancestrais primevos. Nasci no município de Restinga Seca, cercado por rios, sangas, olhos d’água (que, antigamente, ofertavam-nos saborosa água doce e cristalina). Quando olho para a História, aquela oficializada em livros e contada – quase sempre – por vencedores, encontro registros que, nas imediações do meu município, viveram indígenas aldeados em Candelária, entre Paraíso do Sul e Agudo, na região de Itaara, em São Pedro do Sul, Mata e ouso crer que, entre o rio Jacuí, o rio Vacacaí Grande e o rio Vacacaí Mirim (ou "Chico") também estiveram indígenas e jesuítas, neste caso, sob bandeira espanhola. Há indícios, há estudos, há discussões, há possibilidade. Quando olho para a História, aquela registrada pelos missioneiros, quando o Tratado de Madri retirava-lhes a posse sobre o Sete Povos, sei que indígenas miguelistas, luizistas, joanistas estiveram no Passo do Jacuí, defendendo a sua gente, as suas casas, os seus costumes, o direito de seus mortos repousarem nos cemitério erigidos em território que, até então, pertencera à Espanha. Em um local que, séculos mais tarde, viria a ser Restinga Seca, as tropas luso-brasileiras, sob comando de Gomes Freire, pararam, foram impedidas de cumprir as ordens de sua Majestade de além mar para dominarem o chão guarani. Durante dois meses, entre conversações e escaramuças, os soldados regressaram e os indígenas, por meio de um acordo, dilataram a sua fronteira um pouco mais. Não deixou de ser uma vitória, ainda que temporária. A minha Restinga Seca entrava para a História oficial da Espanha, de Portugal, do mundo ocidental... Era, ali, no Passo do Jacuí. A minha terra é (também) guarani.

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