Página em branco
Por Márcia Etelli Coelho ·
A página em branco permite que o escritor exerça a liberdade de expressar ideias e sentimentos. Assim também, o ser humano constrói sua trajetória de acordo com suas escolhas e reações perante às diversas situações da vida. o com suas escolhas
Inúmeros são os benefícios para quem escreve. Expor ideias e sentimentos é terapêutico. Ao escrever, eu identifico minhas emoções, organizo os pensamentos, faço reflexões e abro novas perspectivas para uma determinada situação. Por vezes colocamos no personagem aquilo que gostaríamos de dizer e não temos coragem. Inventamos situações que desejamos, mas não é possível vivenciar. Ou situações que temos medo, funcionando, então, como catarse. Escrever ativa a memória, o raciocínio e a criatividade para elaborar situações que sejam verossímeis, originais e impactantes. Não é fácil. Mas temos ao nosso lado, uma grande companheira: a página em branco. Ela é democrática. Aceita qualquer palavra. É possível escrever sobre a vida, sobre as pessoas que conhece, sobre o que se vê, sobre o que sente. Escrever sobre tudo. Ao buscar material para escrever, o escritor começa a prestar atenção na vida: atenção ao que ocorre ao seu redor, às paisagens por onde anda, às historias que lhe são contadas, aos acontecimentos que vivencia. Tudo pode ser fonte de inspiração. Isso aumenta a capacidade de observação e amplia a visão (interna e a do mundo). Interessante como uma folha em branco pode sintetizar o segredo da vida. Eu, como poeta, tenho a liberdade de escrever sobre qualquer tema. Eu escrevo e, a qualquer momento, posso mudar as palavras, alterar os versos, colocar uma rima diferente, uma vírgula... Capacidade de mudança que pode ser transportada para a minha vida pessoal. A folha em branco, no fundo, não diz nada. As palavras nela escritas é que fazem a diferença e podem tornar essa folha valorosa ou descartada. Assim também é na vida. Cada ser humano constrói sua trajetória de acordo com as suas experiências, escolhas e reações perante as situações do dia a dia. Assim como um poema que está sendo escrito, a vida também se apresenta em constante desenvolvimento, repleta de possibilidades e sujeita a revisões, correções e novas inspirações. E eu vou encerrar esse artigo com um poema que eu escrevi justamente sobre a página em branco. A página em branco mantinha a esperança embora ficasse no canto esquecida. Seu íntimo ansiava por simples lembrança: comédia ou drama, irreal ou vivida. Aberta ela estava pra novas ideias, nenhum preconceito sequer julgamento. E tudo aceitava, romance, odisseias, leal prontidão pra qualquer pensamento. Um dia o escritor vendo a página triste se compadeceu por deixá-la sozinha. De início inseguro, era um risque e rabisque, um verso disperso nem rima continha. Aos poucos um tema assumiu o comando. E página e autor se espelharam, então. No dom de dizer as verdades sonhando. Balanço de letras, um sim e alguns “não”. O texto de pronto quis ser divulgado. A tola exigência, porém, foi mais forte. Queria ser lido... Acabou confinado. O quarto minguante selou sua sorte. Um tempo depois, por audácia ou coragem, a página arriscou-se e saiu da gaveta. E já que na vida o presente é passagem sentiu-se feliz, aceitou-se imperfeita. A página em branco tornou-se poesia se fez porta voz de um tenaz escritor. Transborda emoção... Sua missão se cumpria: Com brilho no olhar se aconchega um leitor.