Duas margens do mesmo mar
Por Waleria Kulkamp Haeming ·
Lisboa e Palhoça, apesar do oceano entre elas, são "duas margens do mesmo mar": a mesma água que sai do Tejo chega, séculos depois, ao mangue de Palhoça.
AS DUAS MARGENS DO MESMO MAR Waléria Külkamp Haeming Há uma hora, em Lisboa, em que a luz desce sobre o Tejo na diagonal, e o rio para de ser rio para virar espelho — não se sabe mais se é o céu que cai na água ou a água que sobe para o céu. É quase sempre no fim da tarde, quando os elétricos cansam de subir as ladeiras e os miradouros se enchem de gente que não diz nada, só olha. Nessa mesma hora, seis fusos horários depois, a maré sobe devagar sobre o mangue de Palhoça, empurrando para dentro da terra a mesma água salgada que, muitos séculos atrás, começou a viagem exatamente ali, nas docas do Tejo. Talvez seja só coincidência de mapas. Ou talvez as cidades, como as famílias, também tenham memória de sangue. Palhoça não nasceu sozinha. Nasceu porque a Coroa portuguesa, há mais de duzentos anos, decidiu mandar gente dos Açores para guarnecer esta costa — e essa gente trouxe, dentro da mala, muito mais do que roupa e semente: trouxe um jeito de erguer parede grossa contra o vento, um jeito de rezar em coro, um jeito de nomear as coisas que ainda hoje se ouve na boca de quem nasceu aqui. O casario colonial que ainda resiste na Praça Sete de Setembro — o velho Paço Municipal, hoje Casa da Cultura, com sua fachada branca e suas janelas em fileira — não é cópia de Lisboa. É Lisboa multiplicada, replantada, que criou raiz nova em chão de mangue e maresia. Quem caminha por Alfama sabe: as cidades portuguesas nunca foram feitas para o carro, foram feitas para o passo lento, para a conversa na porta de casa, para a roupa estendida entre duas janelas que quase se tocam. Palhoça, por baixo do asfalto novo, do concurso público e da BR-101, guarda esse mesmo passo lento em algum lugar — na Enseada de Brito, onde as canoas ainda descansam na areia como se o tempo tivesse combinado de não se apressar. E há a língua, que é a maior herança e a mais teimosa. A mesma palavra que em Lisboa nomeia a saudade — essa palavra que não tem tradução, que outros povos precisam de uma frase inteira para dizer o que os portugueses dizem numa sílaba só — atravessou o oceano e continuou servindo para a mesma coisa: a falta de quem se ama, o desejo do que já não volta, o carinho por um lugar mesmo quando se está nele. Se existe uma crônica escrita ao mesmo tempo em Lisboa e em Palhoça, ela começa sempre pela mesma palavra. Diferença, também há. Lisboa é cidade de pedra e de sete colinas; Palhoça é cidade de mangue e de várzea, deitada baixinho entre o mar e a Serra do Tabuleiro. Uma envelheceu olhando para dentro de si mesma, cheia de azulejo e de ruína bonita; a outra ainda está decidindo que cidade quer ser, entre o crescimento apressado e a vontade de lembrar de onde veio. Mas talvez seja exatamente por isso que uma precisa da outra: Lisboa lembra a Palhoça de onde ela vem; Palhoça lembra a Lisboa que ela continua a acontecer, do outro lado do Atlântico, em outra língua que é a mesma língua. Dizem que, de certos miradouros de Lisboa, em dia muito claro, dá para imaginar o mar inteiro até não se saber mais onde ele termina. Em Palhoça, do alto do Morro do Cambirela, também se vê o mar se confundir com o céu na linha do horizonte. Talvez seja essa a única ponte que essas duas cidades realmente precisam: nenhuma estrada, nenhum avião — só a certeza de que, em algum ponto no meio do oceano, as duas águas que elas olham são, na verdade, a mesma água. E enquanto houver quem atravesse esse mar — em navio, em memória ou em simples vontade de contar a história —, Lisboa e Palhoça continuarão sendo o que sempre foram, sem que ninguém tenha precisado explicar: duas margens do mesmo mar.